"— Ah! sim, talvez não compreendesse… Ainda lhe não expliquei.
Ouça: Desde criança que, pensando em certas situações possíveis numa existência, eu, antecipadamente, me vejo ou não vejo nelas. Por exemplo: uma coisa onde nunca me vi, foi na vida — e diga-me se na realidade nos encontramos nela? Mas descendo a pequenos detalhes"
"A minha imaginação infantil sonhava, romanescamente construía mil aventuras amorosas, que aliás todos vivem. Pois bem: nunca me vi ao fantasiá-las, como existindo-as mais tarde. E até hoje eu sou aquele que em nenhum desses episódios gentis se encontrou. Não porque lhes fugisse… Nunca fugi de coisa alguma."
"Entretanto, na minha vida, houve certa situação esquisita, mesmo um pouco torpe. Ora eu lembrava-me muita vez de que essa triste aventura havia de ter um fim. E sabia de um muito natural. Nesse, contudo, nunca eu me figurava. Mas noutro qualquer. Outro qualquer, porém, só podia dar-se por meu intermédio. E por meu intermédio — era bem claro — não se podia, não se devia dar. Passou-se tempo… Escuso de lhe dizer que foi justamente a "impossibilidade" que se realizou…"
"Dentro da vida prática também nunca me figurei. Até hoje, aos vinte e sete anos, não consegui ainda ganhar dinheiro pelo meu trabalho. Felizmente não preciso… E nem mesmo cheguei a entrar nunca na vida, na simples Vida com V grande — na vida social, se prefere. É curioso: sou um isolado que conhece meio mundo, um desclassificado que não tem uma dúvida, uma nódoa — que todos consideram, e que entretanto em parte
alguma é admitido… Está certo. Com efeito, nunca me vi "admitido” em parte alguma. Nos próprios meios onde me tenho embrenhado, não sei por que senti-me sempre um estranho…"
"Quando era pequeno — ora, ainda hoje! — apavoravam-me as ogivas das catedrais, as abóbadas, as sombras de altas colunas, os obeliscos. As grandes escadarias de mármore… De resto, toda a minha vida psicológica tem sido até agora a projeção dos meus pensamentos infantis — ampliados, modificados; mas sempre no mesmo sentido, na mesma ordem: apenas em outros planos."
"Toda a gente me crê um homem misterioso. Pois eu não vivo, não tenho amantes… desapareço… ninguém sabe de mim… Engano! Engano! A minha vida é pelo contrário uma vida sem segredo. Ou melhor, o seu segredo consiste justamente em não o ter."
"Ah! Lúcio, Lúcio! tenho medo — medo de soçobrar, de me extinguir no meu mundo interior, de desaparecer da vida, perdido nele…"
Palavras de Ricardo de Loureiro,mas parece que fui eu quem escreveu isso...